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Palantir, que fornece equipamentos de IA para o Pentágono, publica manifesto que prega “choque de civilizações”

Documento defende militarização baseada em inteligência artificial e é criticado por analistas como projeto ideológico que ameaça a coexistência global

Ilusração com logotipo da Palantir 3 de agosto de 2025 REUTERS/Dado Ruvic (Foto: Dado Ruvic)

247 – A empresa norte-americana Palantir, uma das principais fornecedoras de tecnologias de inteligência artificial e análise de dados para o Pentágono e agências de segurança dos Estados Unidos, publicou um manifesto no jornal New York Times que vem gerando forte controvérsia no debate internacional. O documento apresenta uma visão estratégica que, segundo críticos, aponta para um cenário de “choque de civilizações” e defende o fortalecimento do poder militar ocidental por meio de software e sistemas baseados em IA.

No texto, a empresa afirma que o Vale do Silício tem uma “obrigação moral” de contribuir diretamente com a defesa nacional e sustenta que o poder das democracias liberais dependerá, cada vez mais, do desenvolvimento de tecnologias militares avançadas. Em um dos trechos centrais, o manifesto declara que “o poder duro neste século será construído com software”, indicando uma mudança de paradigma na geopolítica global, na qual algoritmos e sistemas digitais substituem armamentos tradicionais como eixo estratégico.

Defesa da militarização tecnológica

O manifesto da Palantir parte da premissa de que o mundo caminha para um ambiente de competição irreconciliável entre sistemas políticos e civilizações. A empresa argumenta que adversários dos Estados Unidos não hesitarão em desenvolver armas baseadas em inteligência artificial, e que o Ocidente precisa agir com rapidez para não perder vantagem estratégica.

Entre as propostas apresentadas estão o fortalecimento da indústria de defesa, o incentivo ao serviço nacional obrigatório e o desenvolvimento acelerado de tecnologias militares baseadas em IA. O texto também sugere que o atual modelo de segurança internacional, herdado do pós-Segunda Guerra Mundial, precisa ser revisto, incluindo a defesa do rearmamento de países como Alemanha e Japão.

Além disso, o documento critica o que chama de “tirania dos aplicativos”, argumentando que o foco excessivo do Vale do Silício em produtos de consumo teria limitado sua capacidade de contribuir com desafios estratégicos mais amplos, como segurança e crescimento econômico.

Críticas: ideologia e risco global

A publicação provocou reação imediata de analistas geopolíticos. O pesquisador Arnaud Bertrand, que vive na China, classificou o manifesto como um projeto ideológico perigoso e criticou a lógica central do documento. Segundo ele, a Palantir parte de uma premissa não demonstrada de que diferentes sistemas políticos não podem coexistir.

Para Bertrand, essa visão ignora a história e reativa dinâmicas que levaram a conflitos devastadores. Ele argumenta que grandes tragédias globais não surgiram da diversidade de civilizações, mas sim de momentos em que uma delas passou a considerar as outras como inferiores ou ameaçadoras.

O analista também chama atenção para o fato de uma empresa privada propor mudanças profundas na arquitetura de segurança internacional. A defesa do rearmamento de Alemanha e Japão, segundo ele, representa uma tentativa de revisar acordos que foram estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial ao custo de milhões de vidas.

Interesses econômicos e poder tecnológico

Outro ponto central da crítica diz respeito aos interesses comerciais da própria Palantir. Bertrand argumenta que a expansão de um cenário de militarização global abriria novos mercados para a empresa, especialmente em países que aumentariam seus investimentos em defesa e tecnologia.

Ele também levanta preocupações sobre o papel dos sistemas da Palantir dentro de governos ocidentais. A empresa fornece softwares utilizados por agências de inteligência, forças armadas e órgãos de segurança pública, o que lhe confere influência significativa na definição de ameaças e prioridades estratégicas.

Segundo o analista, esse tipo de tecnologia pode orientar decisões estatais com base em uma visão ideológica específica, e não necessariamente em análises neutras. “Um Estado que terceiriza sua avaliação de ameaças para uma empresa com agenda ideológica não está produzindo inteligência, mas consumindo propaganda”, sustenta.

Debate sobre soberania e controle

A controvérsia levanta questões mais amplas sobre soberania tecnológica e o papel de empresas privadas na definição de políticas públicas. Com softwares capazes de processar grandes volumes de dados e identificar padrões considerados relevantes para segurança nacional, companhias como a Palantir passam a ocupar uma posição estratégica dentro dos Estados.

Para críticos, isso cria um risco estrutural: decisões fundamentais podem ser influenciadas por interesses corporativos e por visões de mundo específicas, em vez de refletirem exclusivamente os interesses nacionais.

Diante desse cenário, Bertrand defende que governos reavaliem o uso dessas tecnologias em áreas sensíveis, como inteligência e segurança. Ele alerta que a dependência de sistemas com orientação ideológica explícita pode comprometer a capacidade dos Estados de agir com autonomia.

Um novo eixo de disputa global

O episódio revela uma transformação em curso na geopolítica contemporânea. Se no século XX o poder era medido principalmente por capacidade industrial e militar tradicional, o século XXI aponta para uma disputa centrada em tecnologia, dados e inteligência artificial.

Nesse contexto, o manifesto da Palantir explicita uma visão de mundo em que a competição entre potências se intensifica e passa a ser mediada por sistemas digitais. Ao mesmo tempo, a reação crítica mostra que há resistência a essa lógica, especialmente entre analistas que defendem a coexistência entre diferentes modelos políticos.

O debate, portanto, vai além de uma empresa ou de um documento específico. Ele toca no futuro da ordem internacional: entre a cooperação e o confronto, entre a soberania estatal e a influência crescente das grandes corporações tecnológicas.

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